17/05/2021 12:15:00
A pandemia de Covid-19 e o consequente isolamento social, com o fechamento do comércio e de serviços, trouxeram novos desafios para os empresários dos mais diversos setores manter os seus negócios. Enquanto muitos fecharam as portas, outros usaram a criatividade e apostaram na inovação para ampliar mercados, conquistar novos clientes e expandir as vendas. Iniciativas estas que deram tão certo que já estão incorporadas no dia a dia das empresas, mesmo após a reabertura gradual da economia.
Este foi o caso do empresário Sérgio Santos Freitas, de Birigui, que se deparou com pedidos cancelados e a suspensão dos pagamentos, em março do ano passado, quando surgiram os primeiros casos do novo coronavírus na região. Dono da indústria Gata Chica, que fabrica calçados femininos adultos, seu faturamento foi a zero com a paralisação da produção. Pouco mais de um ano depois, Freitas fatura R$ 300 mil ao mês, após migrar os negócios para o e-commerce.
Ele conta que, no início da pandemia, passou a confeccionar máscaras de proteção, produtos que estavam com alta demanda, e a vender os calçados que tinha no estoque pela internet. Com o passar do tempo, estruturou a comercialização nos chamados marketplaces, e-commerce mediado por uma empresa em que vários lojistas se inscrevem e vendem seus produtos.
A iniciativa deu tão certo que a produção passou do zero para 700 pares/dia, com as vendas pelos marketplaces da Dafiti, Mercado Livre, Magalu e Netshoes. “Somente pela Dafiti, nosso faturamento é de R$ 200 mil. Esta ferramenta veio para ficar, o mercado é grande e tem, pelo menos, 70% ainda para crescer”, afirma o empresário, que pretende atingir a meta de 1 mil pares diários para atender toda a demanda.
O sucesso refletiu em 18 novas contratações na empresa, que hoje tem 28 funcionários na linha de produção e quatro que atuam no e-commerce.
O empresário também montou uma loja física para expandir ainda mais os negócios. O espaço funciona como um chamariz, que funcionar para fazer o marketing de venda on-line. “A loja física faz a propaganda dos produtos pelas redes sociais, pelo Facebook e Instagram”, contou.
Casos de sucesso como o do empresário Sérgio Santos Freitas se tornaram possíveis graças à inovação, que não é algo necessariamente novo, tampouco tecnológico, mas é a iniciativa de buscar ferramentas para melhorar o desempenho de uma empresa, explica o analista de negócios sênior do Sebrae (Serviço de Apoio às Micros e Pequenas Empresas), Vitor Alan Martins.
“A inovação é importante em qualquer momento, só que na pandemia o resultado é potencializado. Inovar é fazer melhor e um passo fundamental de uma empresa. Um exemplo é o restaurante que não tinha o delivery, passou a ter e conseguiu sobreviver”, exemplifica.
Foi o que fez a empresária Mirele Yumi Ideriha, de Birigui, sócia-proprietária do restaurante japonês Daizo. Sem poder receber os clientes, ela decidiu aderir ao serviço de delivery. Contratou uma empresa de entrega, investiu em embalagens e em um aparelho celular com whatsapp para receber os pedidos.
No início, as vendas foram bem fracas, porque ninguém sabia que fazia entregas, mas, aos poucos, foi conquistando o mercado e, hoje, o delivery corresponde a 70% das vendas do restaurante.
“O delivery veio para ficar. Muita coisa mudou, a gente não fazia ideia deste nicho de mercado, e é um ótimo negócio. Mesmo com a reabertura, muitos ainda têm medo de ir ao restaurante, por isso a entrega é muito importante”, afirma Mirele.
Outra inovação foi no cardápio. Junto com o seu tio, chef Akira, reformulou o rodízio para entrega, com experiência gourmet, que inclui duas entradas, sashimi, duas sobremesas e outras iguarias da comida japonesa. Além disso, passou a abrir aos domingos. “Enxerguei esta oportunidade quando vi que chegavam muitos pedidos pelo whatsapp neste dia”, conta.
Para ela, quem tem um negócio não pode ficar parado esperando, até porque as contas chegam, os funcionários precisam receber, tem os fornecedores para pagar e os alimentos são perecíveis.
“É uma questão de sobrevivência. É preciso buscar uma solução até dar certo. Nós teríamos fechado, se não fosse a adesão ao delivery. A pandemia deixou tudo mais flexível, com a possibilidade de mudar o cardápio e inovar. Eu tinha muita resistência, mas percebi que precisamos nos adaptar e buscar nichos diferentes”, pondera.
O economista e pesquisador Marco Aurélio Barbosa de Sousa, de Araçatuba, afirma que as empresas que inovam são mais resilientes, conseguem superar momentos de dificuldades e crises, saindo muitas vezes até mais fortalecidas após o enfrentamento de adversidades. “A inovação é uma espécie de catapulta para o desenvolvimento econômico”, resume.
Criação de novos produtos e investimento em pesquisa
O empresário Ricardo Azevedo Novais, de Birigui, proprietário da Orion, empresa de tecnologia com 33 anos de atuação que trabalha com ferramentas de software, fez uma analogia de seu negócio com a Fórmula 1, para estimular os funcionários a desenvolverem novos projetos durante a pandemia.
“Assim como os carros vão para os boxes ao término da corrida e os engenheiros começam a pensar em estratégias para a próxima temporada, pensei o mesmo em relação à empresa. A pandemia era o momento de fortalecer os processos e desenvolver novas soluções para quando a economia voltasse a correr”, explicou.
O resultado foi a criação de três produtos novos: um aplicativo para conselhos tutelares, um e-commerce para consumidor final e um terceiro chamado de inteligência econômica, de indicadores econômicos.
“Foi o momento de criar soluções diferentes, para outros segmentos, e a aceitação está sendo muito boa. Conquistamos novos clientes, mantivemos o faturamento e a prospecção está acontecendo”, relata.
Pesquisa
Parelelamente aos novos produtos, a Orion investiu em pesquisa e conseguiu aprovar um projeto na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Trata-se de uma tecnologia voltada para o diagnóstico social, com o uso de inteligência artificial, para auxiliar prefeituras, institutos e fundações a analisarem a situação de determinado local e fornecer base para a captação de recursos, validar as demandas e mostrar o que é prioridade no município.
“Aproveitamos o período para investir em pesquisa e tivemos a felicidade de ter um projeto aprovado pela Fapesp. Neste período, seis bolsistas entraram na empresa”, contou.
Para ele, a pandemia, que de início foi assustadora, trouxe novas possibilidades. “Foi um grande aprendizado, pois trouxe a oportunidade de criar produtos e conquistar novos mercados”, finalizou.
Fonte: Folha da Regiao